sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

PRESERVANDO A MENSAGEM DE R.J. RUSHDOONY: A Obra Mais Importante que a Chalcedon Pode Fazer pelo Rev. Mark R. Rushdoony



Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1

Com a morte de R. J. Rushdoony, fundador da Chalcedon e meu pai, em fevereiro de 2001, houve debate fora e dentro da fundação sobre o curso que ela deveria seguir. Embora muitos tenham encorajado nossos esforços contínuos, uma ou duas vozes sugeriu que deveríamos fechar completamente, para que não fôssemos vistos como nos aproveitando do nome do meu pai. Os últimos comentários, creio, vieram daqueles que não sustentavam o seu nome ou mensagem em alta estima. Outros, mais sinceramente, sugeriram que a Chalcedon tivesse uma nova cara e mudasse para novas áreas de atividade.

“Cresçam ou morram”, era a advertência deles. Nunca fui excitado com aplicar um modelo empresarial a um ministério, mas suas advertências foram feitas com um presságio de desastre, a menos que fizéssemos algo dramático. Talvez a Chalcedon tenha perdido umas poucas oportunidades. Se sim, isso permanece como meu legado.

Outra estratégia, mais conservadora, emergiu na Chalcedon após a morte do meu pai. Isso foi eficazmente, embora sem intenção, reconhecido esse ano por Martin Selbrede no artigo intitulado “By Faith He Still Speaks” [Pela Fé Ele Ainda Fala].2



Selbrede, vice-presidente da Chalcedon, identificou a “grande idéia” de R.J. Rushdoony (aquela que era superabrangente e colocou todas as outras de lado) como sua aderência consistente à suposição que o propósito do homem é glorificar a Deus. Selbrede observou a ênfase da mensagem do meu pai, que tornou sua voz sobressalente. “Não glorificamos a Deus”, disse Selbrede, “a menos que estejamos glorificando a Deus conscientemente”.

Esse era o modus operandi do meu pai em poucas palavras. Meu pai impulsionou os homens a uma busca autoconsciente da glória de Deus em toda área da vida e pensamento; ele assumiu que fidelidade envolvia esforço, não meramente um estado de mente ou ser.

Mais vezes que posso imaginar, as pessoas perguntavam sobre sua posição durona sobre um assunto ou outro. “Por que você crê…” ou “Por que os cristãos deveriam…”, eles começariam; sempre “Por que?”. A resposta do meu pai seria: “Porque isso é o que a Palavra de Deus diz”. O que seguia era freqüentemente um olhar desapontado ou um silêncio, como se estivessem esperando algo mais. Lembro uma vez quando ele comentou sobre o horror com o qual sua observação nas Institutes of Biblical Law I, que o homossexualismo era uma abominação moral diante de Deus merecendo sentença de morte, foi recebida. Seus críticos sempre se reportavam a isso como o que “Rushdoony crê”. Seu comentário era: “Estou escrevendo sobre o que a Bíblia diz. O que eles esperavam que eu escrevesse?”

Institutes of Biblical Law I é a obra mais conhecida do meu pai, e teonomia(significando simplesmente “a lei de Deus como tomando precedência sobre a do homem”) é uma parte principal do seu legado. Esse legado é seu grandemente por causa do antinomianismo (significando “contra a lei de Deus” ou contra a idéia que ela é moralmente obrigatória) da igreja do século vinte na qual ele reintroduziu tal conceito “radical” como lei de Deus.

Teonomia, contudo, não era a “grande idéia” do meu pai, mas somente um meio necessário de perseguir aquela. O homem não pode glorificar a Deus enquanto violando a Sua lei. A igreja a qual ele escreveu estava (e ainda está largamente) prestando serviço labial à glorificação a Deus, enquanto violando as leis de Deus e ensinando os homens a fazer o mesmo (Mt. 5:19). R. J. Rushdoony revirou algumas mesas antinomianas na casa do Senhor. Ele ainda é vilipendiado por fazer isso, principalmente por aqueles que estão agora guardando aquelas mesas dos seus herdeiros teonômicos.

Contudo, a grande idéia do meu pai e a mensagem central da Chalcedon é mais fundamental do que a lei bíblica. A razão pela qual a lei bíblica é controversa é que ela tem encontrado hostilidade dentro da igreja que professa glorificar a Deus, enquanto negligencia obediência à Sua lei. Embora tenha sido freqüentemente acusado(por aqueles que aparentemente negligenciaram a introdução à Institutes of Biblical Law I) de depreciar a justificação pela graça, o que Rushdoony depreciava era o pietismo como substituto para a obediência.

“A Palavra de Deus” era, para ele, uma posição segura contra aqueles que argumentavam que a graça de Deus deve ser justaposta à Sua justiça e assim, defendiam o antinomianismo como um caminho mais sublime. A lei bíblica era, ele claramente delineou, o modelo cristão para a santificação, não apenas justificação, que é um ato da graça de Deus e inteiramente Sua obra. A lei bíblica como instruções para a santificação (crescimento ou amadurecimento na graça) do homem era necessária, pois do contrário o cristão estaria procurando essa santificação através da ilegalidade ou rebelião.

Aqueles na igreja que repudiam R. J. Rushdoony acham fácil apontar seu ensino sobre a lei bíblica como a questão que os ofende, pois eles concordariam, pelo menos conceitualmente, com a necessidade de glorificar a Deus. Aqueles que estudam R. J. Rushdoony do lado de fora da igreja tendem a vê-lo com uma clareza um pouco maior.

Na maioria dos casos os secularistas vêem, na igreja moderna, uma mistura de idéias e movimentos. Em meu pai eles vêem um escopo, uma aplicação ampla da fé que outros professam. Assim, eles algumas vezes entendem incorretamente esse escopo, e sua consistência rigorosa, como a orquestração do Religious Right3 (o qual, por causa do seu potencial impacto sobre política e sociedade interessa-os como a teologia não o faz).

Nem todos têm perdido a ênfase da obra do meu pai. Michael J. McVicar é um candidato secular a Ph.D. na Universidade do Estado de Ohio, trabalhando sobre uma dissertação sobre a contribuição do meu pai para o pensamento religioso e político na América.4

Numa revista secular recente, The Public Eye, ele escreveu um artigo no qual identifica o que vê como as idéias centrais do meu pai:

Como um teólogo Rushdoony via os seres humanos como primariamente criaturas religiosas sujeitas a Deus, não como pensadores racionais autônomos… A inovação primária de Rushdoony foi seu esforço sincero de popularizar uma visão pré Iluminismo e medieval de um mundo centrado em Deus. Ao desenfatizar a capacidade do homem de raciocinar independentemente de Deus, Rushdoony atacou a suposição que a maioria de nós aceita sem críticas.5

Porque o homem foi criado à imagem de Deus, ele é, diferente dos animais, um ser moral. Por causa do seu pecado, contudo, o homem precisa de restauração, ou salvação. Um mundo centrado em Deus precisa da graça de Deus para homens pecadores, a fim de que ele possa se centrar uma vez mais em Deus. A lei bíblica não é o meio de salvação ou graça, mas o caminho daqueles que, pela graça de Deus, foram recentrados nele.

A abordagem pressuposicional de Cornelius Van Til representa a suposição intelectual que o homem é dependente de Deus para todo pensamento. Ela é uma visão centrada em Deus de como o homem pecaminoso pode conhecer algo. Novamente, “o que a Palavra de Deus diz” torna-se o ponto de partida. O homem rebelde é irracional no fato de rebelar-se contra o Deus da verdade, como um garoto sabe-tudo argumentando com um velho sábio. De novo, McVicar vê o cerne da abordagem de Rushdoony à epistemologia(o estudo do conhecimento): “No pensamento de Rushdoony, o conhecimento se torna uma questão de soberania disputada.”6

O pensamento do homem, quer para o bem ou mal, é necessariamente um exercício moral e religioso. Ele representa sua rebelião intelectual e obstinação, ou representa sua submissão autoconsciente ao Deus da verdade.

Bem mais poderia ser dito sobre as idéias centrais de R. J. Rushdoony e como ele as desenvolveu. A responsabilidade fundamental da Chalcedon é preservar as implicações amplas da centralidade de Deus e o senhorio do Seu Cristo que meu pai enfatizou.

Nossa mensagem é superabrangente porque as reivindicações do nosso Deus são totais. É essa crença nas prerrogativas de um Deus soberano e o dever do homem obedecer-lhe que leva a uma visão mais abrangente da responsabilidade do cristão, bem como à suposição pelos nossos críticos que ela é uma agenda política conspiratória.

Muitos grupos tentam iniciar reformas numa área de pensamento ou da vida. Esse é um objetivo legítimo, mas não para a Chalcedon. Focar-se numa área específica poderia facilmente nos fazer perder a amplitude da nossa mensagem. Mesmo a educação (pois somos uma organização educacional), um campo muito amplo e um aspecto específico da Grande Comissão, não é para um fim acadêmico, mas sim para levar à uma teologia de ação (“ensinando-os a observar todas as coisas,” Mt. 28:20).

R. J. Rushdoony era um erudito, um filósofo e um teólogo, mas preferia referir a si mesmo como um ministro de Jesus Cristo. Seu propósito era persuadir cristãos que a nossa crise cultural é uma manifestação em grande escala do pecado que pragueja o coração de todo homem, e que a alternativa ao pecado é a obediência fiel. Sua teologia não era uma busca acadêmica, mas um meio de trazer homens a um comprometimento autoconsciente de servir a Deus. Ele falava da necessidade de repensar e refazer (“reconstruir”) tudo das nossas vidas e instituições em termos desse objetivo autoconsciente. Ele queria inspirar cristãos a esforçarem-se para alcançar destreza nas suas respectivas áreas de trabalho e criatividade, e essa é a mensagem que a Chalcedon tem fornecido desde 1965, e será, pela graça de Deus, sua mensagem nos anos vindouros.

Sobre o autor: Rev. Mark R. Rushdoony é presidente da
Chalcedon e da Ross House Books. É também editor-chefe da Faith for All of Life e outras publicações da Chalcedon.

Fonte: Faith for All of Life, Novembro/Dezembro 2007, p. 2-3.


1 E-mail para contato: felipe@monergismo.com. Traduzido em maio/2008.

2 Martin G. Selbrede, “By Faith He Still Speaks” Faith for All of Life, January/February 2007, pp.16ff.

3 Movimento político conservador composto de cristãos. (N. do T.)

4 McVicar escreveu um artigo nesta publicação: “Rushdoony Among Academics: The Secular Relevance of the Thought of R. J. Rushdoony,” May/June 2007.

5 Michael J. McVicar “The Libertarian Theocrats” The Public Eye, Fall 2007, Vol. 22, No. 3. http://www.publiceye.org/magazine/v22n3/libertarian.html

6 Ibid.

Fonte: http://www.monergismo.com/textos/biografias/obra-mais-importante-rushdoony_Mark-Rushdoony.pdf